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sábado, 12 de março de 2022

Inesgotável

Daniel Braz

Eis a frase do dia:

Louvada seja a mudança suficiente pra encher a pança de uma família.
Pois, se o estômago pesa mas se move o bastante depressa,
A fome até vira,
Tira o sinal de alerta.
Até porque fome de adicto é abstinência
-- disso, afinal, já estou convicto.

Em minha invenção, sobretudo,
Me fio.
Como em "Vinte mil léguas",
Eu sigo.
Nem mesmo luto.
Sou livre de coerção,
Já posso ouvir um assobio,
Ou algum grito de "pega ladrão!",
Ou qualquer coisa do tipo.
Nesse caso, nem ligo.

Ó, Verdade,
Que tipo de coragem requer seu domínio?
Besta selvagem, essa sim,
Ser arisco,
Felino...
Não se deixa domar.
Até que abre concessão.
Possui a si mesma, inteira,
Mas cada um tem dela só um fio.
Pois ela é o quente e o frio,
O todo e o vazio,
A águia e a lesma.
É natureza, é tudo possível,
Ela diz tudo em um só livro,
Em uma resma,
Em uma página.

Só sei que algo sei,
É o que digo
Com toda certeza,
A mesma de Sócrates.
Pois era esse o sentido.
Sobre o "nada", afirmo:
Limite.
Sempre relativo.
E, tendo dito isso,
Apenas o todo me escapa,
Essa fonte inesgotável.

E assim eu indico
O motivo definitivo
Pelo qual valerá sempre
Estar vivo.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Sede de sangue

Daniel Braz

Sede de sangue,
Ânsia de morte.
Se o alvo é certeiro,
O impacto é atômico.
Com sangue nos olhos,
Lanço sua sorte.
Fome de homem,
Efeito quântico.

Inação é ação
E ilação tem suporte,
Solo-sintoma.
Fantasia astronômica
No limite do empírico.
Miro-te no espaço,
Te sigo.
Feito vampiro,
Te sugo,
Talvez te mato.

Ai de mim, o pecado.
Deveras explícito
Deveras errado.
Demasiado.

Ai de mim.
Externamente gelado?
– é possível, provável.
Porém, incendiário.
Eternamente.
Arsenal de insultos,
Inventário sádico.
Surtos involuntários.

De onde o horror?
O massacre?
O disparate?
Evitando o combate,
O eu implode,
Até que explode,
Esvazia-se de ódio.

Homem-besta,
Homem mórbido.
Detesta o mundo
Ou a si próprio?

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Prezados clientes

Daniel Braz

Prezados clientes mundanos,
Em nome de quem lhes serve,
Lamentamos o incômodo,
O desencontro pandêmico,
O coração que ferve,
Certo lapso mnemônico.
Pedimos paciência...
Cedo ou tarde, será mais fácil.

Enquanto isso, aguarde,
Por gentileza.
Mantenham a potência sem ato.
No momento estamos sem serviço,
Mas atendemos por correspondência.
A vida recomeçará em instantes.

Em alguns instantes...
Prezados clientes...
Amantes...
A vida...
(🎶)
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sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Tudo ou nada

Daniel Braz

Confio, sim, em você,
De quem pouco mas muito sei.
Me entreguei, assim mesmo, sem saber.
Pois já sei o bastante sobre mim.
Deixo logo as cartas na mesa,
Vejo um padrão previsível.
Me antecipo.

De você, conheço apenas sua beleza e esse seu lindo jeito
Perfeito... Magnético... Provocante...
O resto pressinto.
Adiante, desilusão inevitável...
Ora, claro, isso também me diz respeito.
Não é algo hipotético, é certeza.
Mas ela se sentiu apaixonada, ou foi cena?
Safadeza? (Risos)
Eis a questão. É o que me pergunto...
Pois de minha parte, eu não minto.

Paciência comigo...
É que cheguei no "tudo ou nada"!
Sim... De antenas ligadas, mas...
Uma aposta com o Diabo já foi feita.
Com ele não há ressarcimento,
Não tem assunto.
Apostei com base em visão privilegiada,
Mas ela pode conter impressão errada.
Ou pode até ser uma cilada (?).

Desfruto, descompensado, este momento
De ter fé na lembrança do que foi,
Sem pensar em receita.
Momento de largar-se em Īśvara,
De lutar com Kṛṣṇa,
Encarar o dever sem bambear.
Não deixar que o medo me paralise
Na obediência à ordem de Durgā.
Sim, pois obedeço, não a mim,
Mas à razão revelada vinda do Alto.
É um caminho em que o amor é o oráculo,
E a bússola, e o antídoto.
Onde brota eu vou num salto.
(Ou, como nesse minuto, nadando a braçada)
É... Com coração não se brinca.
Eu quero é tudo... ou nada!


quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Vou à Bahia

Daniel Braz

Vou à Bahia, pra onde me atrai a vida,
Lá, onde quero estar.
De coração pulsante,
Como eterno amante,
Cujo amor se aprimora.
Me liberto da gaiola dos puruṣārthas,
Em que mora a sociedade dos seres normais,
Preocupados com suas posses e ambições banais.
Não sabem ouvir a voz da vida...

A minha me manda ir pra Bahia,
Não porque aqui seja tão pior que lá,
Mas é errado eu estar, agora, em outro lugar.
Enfim, sou implacável:
Não tolero contradição.
Familiarizado demais com a solidão,
Vivo o que acredito,
Contra a ausência de sentido.

Não adianta apelarem pra segurança,
Sem nunca terem se despido,
Em seu latente sofrimento,
Que, contudo, tem fim,
Junto a ignorância,
E para a mudança nos chama.
Ó, ardente combustão!
Inflama e conduz,
Das trevas à luz!

Quero, pois, estar com ela,
Bancar meu desejo,
Sair dessa cela.
Aqui, estou em repouso,
Atrás das grades.
Me sinto passivo,
Busco atividade.

E, ainda mais,
No pleno gozo das faculdades,
Conheço algo que não se ignora,
Pois registrei na memória,
E sei:
É coisa de apreço,
Que não se joga fora.

Ah... O que há na Bahia me enamora...

Os que me advertem
Não se divertem,
Mas reconheço seu ponto valioso.
Porém, evito olhares sérios.
Sou criança arteira,
Menino treloso.
A vida é brincadeira,
Eu encontrei a minha parceira:
Com quem tudo é mais gostoso!

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

De um só golpe!

Daniel Braz

Sinto impactante presença!
Satisfação estética,
Prazer e conforto,
Paz,
Reação química,
Desejo de propósito,
Opinião veraz,
Querer bem.
Não se trata de mera crença,
É impressionante...
Não importa como éramos antes!

(Sinto sua boca em minha orelha.
Ouço a sua voz umedecida.
Os meus olhos estão vendados
E minha alma entumecida.)

Não lhe conheço,
Lhe apreendo.
Vou além do concreto.
De que valem mil conceitos
E toda epistemologia
Frente ao mais nítido sentimento,
Claro como a luz do dia?
Afinal, é próprio da natureza,
De um só golpe, a quem contempla,
revelar a Ideia,
Em toda sua certeza,
Na eternidade do momento,
Na suspensão do espaço tempo,
Na essência por trás do aparecimento.

Fundamento da alcateia humana,
"Telos" de todas as regras.
Com você não canso de conversa.
Confio em sua presença,
E conhecê-la muito me interessa.
Sim, na vida não tenho pressa,
E nem sei aonde quero chegar.
No amor, por certo...
Cheguei!

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Ensejo

(01/11/2020)

Daniel Braz

Como posso estar errado
Se nada nunca foi tão claro?
A vida não dá garantias,
Apenas ensejo,
E a felicidade não espera,
Não dá tempo ao desejo.
É pegar ou largar.

Alguns pensam que felicidade é produto em oferta,
Procuram-na em vulgares prateleiras.
Até parece...
Ela não se prestaria a tamanha pobreza...
É nas horas certas, e em determinados lugares, que ela se faz presente,
E logo depois perece:
Fenômeno único em espécie na natureza...
Pouco recorrente, sim...
Mesmo ao longo de vidas inteiras!

Aos indecisos, meus pêsames!
A auspiciosa felicidade sabe do seu valor.
Ama quem não mede consequências
Quando contempla sua essência,
Quem age por amor.
(O terror dos utilitaristas)
(Sobre você e eu ela traz notícias).
Sabe que nos têm em suas mãos,
Ainda que alguns pensem o inverso.
Por isso mesmo, esnoba:
Não foi feita para quem vive disperso.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Samsara

Daniel Braz

Me dê a sua mão, vem, se segura,
Que a roda do mundo não tem direção.
Gira a roda, roda a roda, a roda gira, concentrando na respiração profunda.
Vamos deslizando nessa curva única.
Dentre tantos planos, tudo e nada muda.
Quanto mais forte é a emoção, mais agitada é a superfície dessa grande ilusão.
Dizemos "sim", mas sem jamais nos desviar da disciplina, da clareza e da razão.

Nesse giro tenho que aprender a lição.
O sentido tem que ser a intuição.
Quero ver para crer, com os pés no chão.
Os motivos do querer não devem ser em vão.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Inveja

Daniel Braz

Inveja, se pensa que isso me afeta,
Não peça que eu entre no jogo que resta.
Sai dessa, pois sei muito bem quem não presta.
De perto sorri, de longe nem vi.

Inveja é coisa pra quem nunca faz melhor.
Quem leva se esquece do próprio valor, dá dó.
Sua meta é vencer na vida por W.O.
Se é pra competir, pois vão me engolir.
Mas não tô nem aí.
Há melhores razões pra existir.

Inveja não pega em quem sabe ficar só
Nem se apega àquilo que um dia vai virar pó.
Pra que pressa, se a beleza da vida é tão maior?
Eu já sou feliz, sou o que sempre quis.
E você o que me diz?
É hora de olhar pro seu nariz.

Será que um dia você vai cair na real,
Seguir seu jeito natural?
Há muita grama pra regar no seu quintal.
Nunca é tarde pra se conhecer,
Você vai ver.

Inveja, um crime que ninguém confessa.
Inveja...
Inveja, é tudo o que não me interessa.
Inveja...

sábado, 19 de maio de 2018

Eu não vou mentir

Daniel Braz

Não, eu não vou mentir,
Não vou vacilar,
Nem te deixar pra trás.

Não, eu não vou mentir,
Te juro por Deus,
Eu sou Ele sou eu.

Não, não vou lhe invadir,
Nem te assediar,
Nem te deixar morrer.

Não vou te oprimir.
O que é seu é meu,
Eu sou você sou eu.

Solidão é a mais nova segurança,
É a razão dessa onda de matança.
Sem perdão um homem nada mais alcança
Não tá bom, desse jeito não valeu,
Não valeu,
Não valeu,
Não valeu.

Não, eu não vou mentir,
Te juro por Deus,
Eu sou Ele sou eu.

Não, eu não vou mentir,
O que é seu é meu,
Eu sou você sou eu.

Eu sou ele sou eu.
Você sou eu, ele sou eu.

Eu sou você sou eu,
Ele sou eu, você sou eu.

Ué? Quem sou?
Ele é você sou eu,
Pois então pra que fingir?
O ser dissolve tudo,
Por isso digo que...

Não, eu não vou mentir.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Ela não vai demorar

Daniel Braz

Ahhh meu coração já vai se apaixonar,
Ahhh mas eu não sei aonde ela foi parar.
Ahhh eu sei que o amor nem sempre é um bom sinal.
Ahhh é pura fantasia, é ideal.

Mas não se assuste, não corremos perigo,
Nenhum de nós está procurando abrigo.
Foi muita sorte a gente se encontrar,
Vem viver, meu bem, deixe seus medos pra lá.

Ela não vai demorar,
Ela vai voltar.
Ela não vai demorar,
Ela vai voltar.

Ahhh se você pensa que eu sou radical,
Ahhh quem ama está pra além de bem e mal.
Ahhh o amor foi sempre o que me transformou.
Ahhh pro sentimento eu digo "sim, senhor".

Sou sincero, também sou amigo,
Não sou do tipo que só olha pro umbigo.
Foi muita sorte a gente se encontrar,
Por favor, meu bem, deixe os receios pra lá.

Ela não vai demorar,
Ela vai voltar.
Ela não vai demorar,
Ela vai voltar.

domingo, 10 de dezembro de 2017

Doença

Daniel Braz

E se eu lhe mostrasse a alucinação em toda experiência?
Se eu dissesse a você
"Tudo o que crê é mero sintoma da mesma doença",
Você fecharia os ouvidos às pressas?
Mas quem sou eu pra fazer uma coisa dessas...
Não sou imune.
A não ser que você me peça...
Aí, porém, eu não serei mais ninguém.
Falarei em nome de algo além.

Quanto mais se crê que a certeza de fato existe,
Quanto mais tudo o que se chama "lei" em suas ideias persiste,
Mais grave é o erro em que insiste.

Você não vê?
Há tempos você está caindo,
Está indo fundo nesse abismo,
Agarrado firmemente à identidade.
Nome, posição... Mas que bobagem.
Nós todos somos apenas personagens.
Nada disso tem absolutamente um sentido.
É isso que digo.

Mas veja o absurdo contido em sua vontade:
Enquanto está em queda,
Em sua crença você se eleva.
O mundo gira,
Mudam as regras,
Mas, em sua ignorância,
Só você sempre tem as rédeas.
Outras possibilidades?
Apenas nega.

Quanto pesar...
Se não for mais forte,
Chegará o dia
Em que morrerá por asfixia.
Não há corpo que suporte esse ar.
Não vai adiantar reclamar...
Trata-se do ar que você respira.
É o que lhe restará...
A morte,
Ou o reconhecimento de que,
Não o mundo,
Mas você precisa mudar.

sábado, 9 de dezembro de 2017

Erótico: (II) Amor eterno

Daniel Braz

Eterno amante
É o que eu sou.
Condição ingrata?
Aonde ponho tanto amor?

Em meu interior ele brota,
Recheia e transborda.
Com força,
Meu sangue pulsa,
Enquanto você se afasta.
Estranha repulsa.

É o desperdício o que mais me incomoda.
Assunto difícil...
Para onde vai tudo isso?
Sentimento assim não nasce toda hora.
Amor não se joga fora.
Ai de mim...

Para o amor não há tempo ruim.
Deixo os poréns para outros eventos.
E você?
Seguiria meu exemplo?

                     *

À luz da intuição,
Largo para trás apenas o medo.
Realizo a ação.
Entrego, confio, aceito e agradeço.
E, se o acaso me acabar por inteiro,
Tanto melhor.
Dos escombros da ilusão,
Retorno ainda mais forte,
Ainda maior.
Sou eternamente perfeito.
Atento a mim, é o que enfim reconheço.

Derramo, sim, o meu amor,
Com todo apreço,
De graça,
Ciente daquilo que supostamente mereço:
Amor verdadeiro.
Mas não quero cair nessa inútil espera,
Nessa farsa.
Os resultados do que faço nem me pertencem por direito.
Não há nem mesmo um "eu",
Muito menos um "outro".
Dizem por aí ser "tudo" o que é puro "nada".
O que você chama de mau é apenas quimera.
Contudo,
Há apenas amor do fim ao começo,
Em toda era.

                      *

Na esteira da verdade eterna,
Minha alma é de gênio,
Que depende da vida,
Que apenas nesta se inspira.
Desejo uma musa à minha altura.
E você já foi escolhida.
Minha postura é de entrega,
A sua é a de obsessão pelas regras
De um jogo nunca antes jogado,
E que, por isso,
Nunca de fato começa.
Ah... Mas bem que poderia!
(Estou convicto, perdoe a teimosia)
E como eu gostaria!

Erótico: (I) Nuvens

Daniel Braz

Como uma nuvem,
A ansiedade encobre a luz do sol,
Enquanto este permanece imóvel,
Lançando seus raios.
Enorme farol.
Mas viver é fácil...
É autoevidente.
Basta seguir a corrente,
Que brota da mais íntima nascente.

Precisamos falar sobre o real,
Onde não há acordo com nossos planos,
Mas apenas o inverso.
Na abertura para a contingência,
O ideal é mera forma prévia,
Enquanto o real, substrato de toda aparência,
É o que de fato está ali, expresso.
Tragédia ou comédia,
Em tal contraste, há a margem que nos resta.
Mas a vontade do sujeito é livre,
- Inclusive dele mesmo -,
E, pelo menos para este,
Sempre faz a coisa certa.
No tato, em contato imediato,
Cumpre ao que se presta,
Não importa o nome da peça.

No amor, estamos para além da razão.
No corpo, estamos para além da mente.
Ora, sejamos menos reativos, mais meditativos,
Testemunhas silentes,
Serenas de que todo temor é uma ilusão,
De que não há dor que não se suporte,
E de que as chances de prazer só acabam com a morte.
Nos libertando de antigos parâmetros
E de sonhos juvenis de um futuro que satisfaz,
Deixemos que o amor brilhe aqui, em ação.
Especulação jamais.
Amor não é memória, nem tampouco imaginação.
Ele está vivo, e precisa de ar.

Apesar de mim, lhe dou amor.
Apesar dos traumas e dos riscos, lhe dou amor.
Não sei por que,
Nem pra que,
Mas sei que...
Transbordaria em você todo o excesso do meu amor próprio.
Ou até mesmo seria contigo uma e única solução homogênea.
E me pergunto por que você ainda está aí,
No topo de um castelo flutuante,
Sem portões ou janelas,
Sendo que, num sentido lírico,
Você me completa.
No fundo ainda espero que você desça daí e venha.

Em prol da certeza, seu sacrifício é o que te leva à paralisia.
Você não chega ao seu objetivo.
De palavra em palavra,
De teoria em teoria,
Adiciona névoa às nuvens em plena manhã,
Tornando tudo mais escuro,
Sem contudo transformar em noite o que ainda é dia.
Isso aí, só o Tempo de fato cria.
Ó, ser todo auspicioso,
Para quem toda culpa é vã,
Lá vamos nós de novo em sua crista.

Eu, por amor, sigo sendo um alquimista.
Inspirado eternamente por Eros,
De fato não preciso de ti,
Mas a ti me entrego.
E, assim, à vida não me nego.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Franco

Daniel Braz

Ora, mas que mania de ser franco...
Compulsão obsessiva.
Não tem jeito.
Em nome da clareza segura,
Pinço os conceitos, faço retórica e canto
Ao menos em nome do Belo e do Veraz
- Não do Bom -
Já deveria ser um adianto...
Mas não.
Reputação de honesto não dura,
Só entende quem atura.

domingo, 29 de outubro de 2017

Fome e sede

Daniel Braz

Tenho fome de ciência
E sou consciente do apetite daquilo
Que me faz nutrir minhas vísceras,
Que dá sentido à minha pélvis,
Em cuja conta eu ponho meu amor,
Erótico, criador.

Ó, objeto da minha fome,
Minha conquista,
Minha riqueza mais pessoal.

Pelos porquês eu vivo.
Em função deles me permito
Experimentar o mundo com ares de alquimista,
Examinando sua superfície
e também seu avesso,
Manipulando-o.
Assim, conheço.

Minha amostra é o solo em que eu próprio piso,
Que, em meus pés, eu sinto pressionar,
Entendendo, sem visão, o que por esta não pode ser entendido,
Pois o tato é o mais primordial sentido,
Diria também o mais rico.
Tópico do mais subjetivo estudo.

Eu sei, é bem por isso...
Vivemos pelo apetite, 
E a ciência traz grandes perigos...

Mas tenho sede de aventura,
De ampliar minhas latências,
Fazendo modelo a minha inocência,
Meu instinto de prazer.

Aliás,
Se nunca é tarde,
Meus planos aceitam cúmplice.
Há de se querer profunda intimidade.
Alma sincera em cujo corpo se desvela,
E se revela.
Transparente véu.

Tenho saudade de ter saudade.
Tanto faz?
Corajoso é dispensar a mão que agarra e traz de volta,
Que te puxa quando já lhe falta ar.

Mas vou pro mar mesmo assim,
Mesmo sabendo que mar não tem fim.
Ora nado,
Ora me deixo levar.
Sonhando acordado,
Sem cochilar.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Ato falho

Daniel Braz

Os movimentos são como o traçar de uma linha
Por uma mão que se deixa levar sem pensar.
Sem razão.
São rabisco, risco.
(Atenção para a concordância, está correto.)
Não há sujeitos, há um processo.
Sim, intuição sem conceito.
Em todo ato, pura ânsia.
O uno no múltiplo.
Ímpeto cego na instância.
Nada demora.

Passado e futuro são sintomas do sono leve
de que até a morte nunca se acorda.
Mesmo vivo,
O indivíduo subsiste na espécie
Ou na horda.
Pobres seres terrestres...
Cujos olhos são feitos do que se herda.

Se isso inconforma,
ou se é um insulto,
Pouco importa.
Espasmo.
Espirro.
Ato falho.
Casca de banana.
Potência e contingência.

É o ser por detrás da aparência.
É a matéria sem forma.
É a aleatoriedade das cartas do baralho.
Com ela se joga.
Pois a lei natural é anterior à norma.

sábado, 12 de agosto de 2017

Transformação

Daniel Braz

OM namaḥ śivāya,
Nada se perde, tudo se cria

OM namo' brahmaṇe,
Nem tudo o que se cria é bom.
O belo do mundo é transformação.

Minha obra será bela,
Deve ser.
O ruim foi apenas tentativa.
É preciso saber quando se está à deriva.

É de sentir quando o esforço é inútil...
Nada de insistir em remendos,
De tentar colar estilhaços!
A vida é finita,
Largue a certeza à ordem natural dos fatos.

Semente boa dá frutos,
Semente que não vinga vira adubo.
Mas o mundo é também amaldiçoado,
Castelo de areia,
Frente ao mar agitado.
Tão frágil...

Os que pretendem ainda construir seus palácios,
Lembrem,
A verdadeira riqueza, sua fonte original,
É de acesso mais fácil,
Na mais interna experiência.
Na natureza de quem cria,
Onde o mar não agita.

Se toma-lhe o ato,
Não leva junto a potência.

domingo, 16 de julho de 2017

Misantropia

Daniel Braz

Minha porta está trancada!
De qualquer modo,
Não entre sem bater,
E saiba logo:
Sou indiferente a você...
- Verdade necessária,
Mas não leve para o lado pessoal -
OK, insisto,
Lhe proponho uma charada.
Preste atenção nisto.
Será você capaz de responder?
Se sim, lhe mostro um pedaço de mim...
Se não, é melhor que se contente
Com minha versão cínica,
E meu olhar plácido,
Indiferente.

- Se eu sou uma pessoa ruim? -
Depende do seu referencial...
Então antes se oriente!
Mas não confunda universal
Com mera disposição natural.
Ruim seria se não fosse eu mesmo.

Faço o que estou a fim,
E levo a vida do modo mais fácil.
Como eu desejo.
Do modo mais fácil pra mim.

Imagino o mundo inteiro,
E penso que tudo valerá,
E que meu valor valorará,
E que meu amor abençoará,
Criando tudo por si mesmo,
Instigando meu desejo,
Usando meu corpo como melhor brinquedo.

Aos distraídos, alto lá!
Eu canto sim para as massas,
Assim como no chuveiro,
Pois é a mim mesmo que faço as graças.
Não me interessa ser polido,
Não preciso de comparsas.
Obra boa é sempre minha,
Nela você não faz a menor falta.
Seu cumprimento não me fala.
Minha alma já me basta.

sábado, 8 de julho de 2017

Rotação

Daniel Braz

Eu não tenho controle,
Não respondo por mim,
Tô descendo a ladeira,
E meus pés são patins.
O rolamento é leve,
A descida é íngreme,
A vida é breve,
E deve ser aceita assim.

Segura firme,
Me dê a mão.
Tudo gira,
Tudo roda.
Lá fora tudo passa,
Mas aqui dentro tudo volta.
Pois cada um já traz sua norma,
E é ela que nos controla
A cada hora,
Em cada ação voluntária.

Larguei de vez a ilusão binária,
A pretensão do pensamento
Que pensa que é fonte primária.
Um sonho bom permanece sonho,
E eu prefiro as coisas claras.
Sonhei que era rei,
Mas toda vida é escrava.
Liberdade é apenas uma palavra.
Enquanto vivo, sou puro karma,
O eterno retorno,
A roda do samsara.

Lhe ofereço, então, este anel.
Circunferência da minha alma.
E, para além de toda sequência,
De todo arranjo variável de cartas,
O que prometo é aquilo que fica,
Aquilo que sempre volta.

Por favor, me dê o mesmo em troca,
Para que nossa rotação se aproxime,
Em sincronia,
Descendo a ladeira,
No ocaso da vida.