Daniel Braz
OM namaḥ śivāya,
Nada se perde, tudo se cria
OM namo' brahmaṇe,
Nem tudo o que se cria é bom.
O belo do mundo é transformação.
Minha obra será bela,
Deve ser.
O ruim foi apenas tentativa.
É preciso saber quando se está à deriva.
É de sentir quando o esforço é inútil...
Nada de insistir em remendos,
De tentar colar estilhaços!
A vida é finita,
Largue a certeza à ordem natural dos fatos.
Semente boa dá frutos,
Semente que não vinga vira adubo.
Mas o mundo é também amaldiçoado,
Castelo de areia,
Frente ao mar agitado.
Tão frágil...
Os que pretendem ainda construir seus palácios,
Lembrem,
A verdadeira riqueza, sua fonte original,
É de acesso mais fácil,
Na mais interna experiência.
Na natureza de quem cria,
Onde o mar não agita.
Se toma-lhe o ato,
Não leva junto a potência.
sábado, 12 de agosto de 2017
domingo, 16 de julho de 2017
Misantropia
Daniel Braz
Minha porta está trancada!
De qualquer modo,
Não entre sem bater,
E saiba logo:
Sou indiferente a você...
- Verdade necessária,
Mas não leve para o lado pessoal -
OK, insisto,
Lhe proponho uma charada.
Preste atenção nisto.
Será você capaz de responder?
Se sim, lhe mostro um pedaço de mim...
Se não, é melhor que se contente
Com minha versão cínica,
E meu olhar plácido,
Indiferente.
- Se eu sou uma pessoa ruim? -
Depende do seu referencial...
Então antes se oriente!
Mas não confunda universal
Com mera disposição natural.
Ruim seria se não fosse eu mesmo.
Faço o que estou a fim,
E levo a vida do modo mais fácil.
Como eu desejo.
Do modo mais fácil pra mim.
Imagino o mundo inteiro,
E penso que tudo valerá,
E que meu valor valorará,
E que meu amor abençoará,
Criando tudo por si mesmo,
Instigando meu desejo,
Usando meu corpo como melhor brinquedo.
Aos distraídos, alto lá!
Eu canto sim para as massas,
Assim como no chuveiro,
Pois é a mim mesmo que faço as graças.
Não me interessa ser polido,
Não preciso de comparsas.
Obra boa é sempre minha,
Nela você não faz a menor falta.
Seu cumprimento não me fala.
Minha alma já me basta.
Minha porta está trancada!
De qualquer modo,
Não entre sem bater,
E saiba logo:
Sou indiferente a você...
- Verdade necessária,
Mas não leve para o lado pessoal -
OK, insisto,
Lhe proponho uma charada.
Preste atenção nisto.
Será você capaz de responder?
Se sim, lhe mostro um pedaço de mim...
Se não, é melhor que se contente
Com minha versão cínica,
E meu olhar plácido,
Indiferente.
- Se eu sou uma pessoa ruim? -
Depende do seu referencial...
Então antes se oriente!
Mas não confunda universal
Com mera disposição natural.
Ruim seria se não fosse eu mesmo.
Faço o que estou a fim,
E levo a vida do modo mais fácil.
Como eu desejo.
Do modo mais fácil pra mim.
Imagino o mundo inteiro,
E penso que tudo valerá,
E que meu valor valorará,
E que meu amor abençoará,
Criando tudo por si mesmo,
Instigando meu desejo,
Usando meu corpo como melhor brinquedo.
Aos distraídos, alto lá!
Eu canto sim para as massas,
Assim como no chuveiro,
Pois é a mim mesmo que faço as graças.
Não me interessa ser polido,
Não preciso de comparsas.
Obra boa é sempre minha,
Nela você não faz a menor falta.
Seu cumprimento não me fala.
Minha alma já me basta.
sábado, 8 de julho de 2017
Rotação
Daniel Braz
Eu não tenho controle,
Não respondo por mim,
Tô descendo a ladeira,
E meus pés são patins.
O rolamento é leve,
A descida é íngreme,
A vida é breve,
E deve ser aceita assim.
Segura firme,
Me dê a mão.
Tudo gira,
Tudo roda.
Lá fora tudo passa,
Mas aqui dentro tudo volta.
Pois cada um já traz sua norma,
E é ela que nos controla
A cada hora,
Em cada ação voluntária.
Larguei de vez a ilusão binária,
A pretensão do pensamento
Que pensa que é fonte primária.
Um sonho bom permanece sonho,
E eu prefiro as coisas claras.
Sonhei que era rei,
Mas toda vida é escrava.
Liberdade é apenas uma palavra.
Enquanto vivo, sou puro karma,
O eterno retorno,
A roda do samsara.
Lhe ofereço, então, este anel.
Circunferência da minha alma.
E, para além de toda sequência,
De todo arranjo variável de cartas,
O que prometo é aquilo que fica,
Aquilo que sempre volta.
Por favor, me dê o mesmo em troca,
Para que nossa rotação se aproxime,
Em sincronia,
Descendo a ladeira,
No ocaso da vida.
Eu não tenho controle,
Não respondo por mim,
Tô descendo a ladeira,
E meus pés são patins.
O rolamento é leve,
A descida é íngreme,
A vida é breve,
E deve ser aceita assim.
Segura firme,
Me dê a mão.
Tudo gira,
Tudo roda.
Lá fora tudo passa,
Mas aqui dentro tudo volta.
Pois cada um já traz sua norma,
E é ela que nos controla
A cada hora,
Em cada ação voluntária.
Larguei de vez a ilusão binária,
A pretensão do pensamento
Que pensa que é fonte primária.
Um sonho bom permanece sonho,
E eu prefiro as coisas claras.
Sonhei que era rei,
Mas toda vida é escrava.
Liberdade é apenas uma palavra.
Enquanto vivo, sou puro karma,
O eterno retorno,
A roda do samsara.
Lhe ofereço, então, este anel.
Circunferência da minha alma.
E, para além de toda sequência,
De todo arranjo variável de cartas,
O que prometo é aquilo que fica,
Aquilo que sempre volta.
Por favor, me dê o mesmo em troca,
Para que nossa rotação se aproxime,
Em sincronia,
Descendo a ladeira,
No ocaso da vida.
quinta-feira, 6 de julho de 2017
Presente
Daniel Braz
Não resisto ao presente,
À maneira como meu corpo o sente.
Se, então, vejo que todas as forças que em mim lutam
Nele convergem tendo um alvo em comum,
Assumo:
Eis aí minha verdade manifesta,
Na matéria, na aparência, na vontade,
Em ativa passividade.
E por que não respirar outros ares
Quando estes já preenchem minhas narinas?
Decerto, é preciso saber o que sou
Para saber que tipo de ar me mantém mais vivo.
Mas é presente o oxigênio da essência que inspiro,
Por isso nela me inspiro.
Enfim, na atenção a mim,
Objeto imediato,
Desvendo enigmas,
Removo obstáculos.
Pois, meu corpo é planta,
É flor que quer desabrochar.
É rio,
É água que quer fluir.
Minha alma?
A alma é o próprio corpo que quer vida,
Faminto de matéria,
Seu próprio substrato,
Ávido para fecundar, nesta, sua Ideia,
De modo que, mesmo finito,
Da eternidade participo.
Deste princípio, pois, constato:
Dar minha forma à matéria que vivo,
Eis o grande objetivo!
Não resisto ao presente,
À maneira como meu corpo o sente.
Se, então, vejo que todas as forças que em mim lutam
Nele convergem tendo um alvo em comum,
Assumo:
Eis aí minha verdade manifesta,
Na matéria, na aparência, na vontade,
Em ativa passividade.
E por que não respirar outros ares
Quando estes já preenchem minhas narinas?
Decerto, é preciso saber o que sou
Para saber que tipo de ar me mantém mais vivo.
Mas é presente o oxigênio da essência que inspiro,
Por isso nela me inspiro.
Enfim, na atenção a mim,
Objeto imediato,
Desvendo enigmas,
Removo obstáculos.
Pois, meu corpo é planta,
É flor que quer desabrochar.
É rio,
É água que quer fluir.
Minha alma?
A alma é o próprio corpo que quer vida,
Faminto de matéria,
Seu próprio substrato,
Ávido para fecundar, nesta, sua Ideia,
De modo que, mesmo finito,
Da eternidade participo.
Deste princípio, pois, constato:
Dar minha forma à matéria que vivo,
Eis o grande objetivo!
domingo, 25 de junho de 2017
Sentimento
Daniel Braz
Ai ai, o que é isto, o sentimento?
Isto, que é tão mais real que o pensamento...
Pode até ser pensado,
Mas, não nos enganemos,
Só existe em presença.
Condicionado por sua causa suficiente,
Condenado à contingência do instante
Em que se torna ato o que até então esteve apenas potente,
É a prova de que em toda ação não há sujeito agente,
Mas somente o todo que a mim e a você pertence.
Brindemos à natureza no transparente cálice de sua pura sabedoria,
De cuja eterna inocência participamos,
Como corpo vivo que somos,
Agraciados com a imagem do seu mais perfeito espelho:
Viva a consciência!
Não é necessário controle sobre o que já está em ordem,
Não é preciso preenchimento do que já é pleno.
Evoco, pois, o sentimento
Como sinal singelo de que já somos o que queremos.
O que queremos?
Ora, é disso que o sentimento é reflexo.
Seus olhos estão bem abertos?
E como vão seus nervos?
Ai ai, o que é isto, o sentimento?
Isto, que é tão mais real que o pensamento...
Pode até ser pensado,
Mas, não nos enganemos,
Só existe em presença.
Condicionado por sua causa suficiente,
Condenado à contingência do instante
Em que se torna ato o que até então esteve apenas potente,
É a prova de que em toda ação não há sujeito agente,
Mas somente o todo que a mim e a você pertence.
Brindemos à natureza no transparente cálice de sua pura sabedoria,
De cuja eterna inocência participamos,
Como corpo vivo que somos,
Agraciados com a imagem do seu mais perfeito espelho:
Viva a consciência!
Não é necessário controle sobre o que já está em ordem,
Não é preciso preenchimento do que já é pleno.
Evoco, pois, o sentimento
Como sinal singelo de que já somos o que queremos.
O que queremos?
Ora, é disso que o sentimento é reflexo.
Seus olhos estão bem abertos?
E como vão seus nervos?
domingo, 17 de novembro de 2013
Neurônios
Daniel Braz
Imagens, índices,
Cores, formas,
Símbolos,
Meios quentes,
Meios frios,
Cada um com seu motivo.
Neurônios dependentes químicos
De suas enzimas,
A princípio sem relação com vício,
Mas apenas por uma questão vida.
Porém, conduzidos às escondidas
Por estímulos externos
Bastante diversos.
É aí onde mora o perigo.
Humor, pensamento,
Comportamento, ambiente,
Agindo em círculo permamente,
Afetando nossa mente.
É o que não percebemos.
Porém, levamos a fins extremos
A crença na vontade
De uma razão cínica,
Que não é capaz de dar conta
De suas prioridades.
A justificativa se dá pela sofística,
Possivelmente muito bem construída
Devido a sua credibilidade adquirida
Ou por cegueira coletiva de apenas um olho,
Enquanto o outro faz vista grossa
Para a hiperrealidade
Que entorpece a mente e o corpo,
Já menos vivo do que morto.
sexta-feira, 15 de novembro de 2013
Romântico
Daniel Braz
Aí, isto, aquilo,
O que não pode ser dito
Em si diz e para si ouve.
Consciente por princípio,
Eternamente pleno,
Existe.
Ele e eu somos idênticos.
Então permita-me, por um instante,
Realizar um produto desse romance,
Tentar tornar possível o que está fora do alcance,
Ter um filho com minha natureza.
Absoluto, pegue minha caneta
E escreva,
Transbordando sua tinta
De qualquer maneira.
Me transforme em santo
E faça milagre,
Sejamos um nesta obra de arte.
Aí, isto, aquilo,
O que não pode ser dito
Em si diz e para si ouve.
Consciente por princípio,
Eternamente pleno,
Existe.
Ele e eu somos idênticos.
Então permita-me, por um instante,
Realizar um produto desse romance,
Tentar tornar possível o que está fora do alcance,
Ter um filho com minha natureza.
Absoluto, pegue minha caneta
E escreva,
Transbordando sua tinta
De qualquer maneira.
Me transforme em santo
E faça milagre,
Sejamos um nesta obra de arte.
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