terça-feira, 9 de julho de 2013

Crise ou Auge?

Daniel Braz

O que, afinal, queremos?
Seja o que for, por favor,
Palavras de menos.

Pois ficai atentos:
Vossos conceitos são inflados,
E se pensais que aquilo que vós pensais vale algo,
Em verdade, em verdade vos digo:
Não vale um centavo.

Não vos orgulheis de vossas máximas.
Se, por um lado, não pudéreis, sem elas, dar um único passo,
Por outro lado, se não as desprezais, serão pedras em vossos sapatos.
Prudente, portanto, é ter sempre cuidado frente aos poetas e suas frases de impacto.

Quanto tempo desperdicei fazendo espetáculos
De meus próprios "termos gerais abstratos"...
Como não percebia o que estava tão claro?
Era algo, inclusive, que para mim já estava dado.

                                   *

A comunicação opera na esfera da probabilidade,
Então, cantemos uma canção.
"As ideias coincidem em um dialogo,
E correspondem à realidade sensível",
Positivo?
Quem dera...

Apenas os tolos acreditam ler pensamentos,
E só mesmo sendo burro para querer dar conta do absoluto
Através de um meio tão fajuto como o intelecto.
Mas, vamos combinar,
Mantemos o faz de conta para não decepcionar as crianças,
Enquanto tentamos encontrar o nosso caminho reto.

Nesse projeto, a vida é potência criadora,
E sábias escolhas são sempre conscientes
De que nada seríamos se não fosse
O olho do olho,
O ouvido do ouvido,
A boca da boca
E a mente da mente.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Dias silenciosos

Daniel Braz

Ah, esses dias silenciosos...
Salve a sabedoria da página em branco,
Do coração franco,
Da razão dos pensamentos inocentes
Que vem e passam.

Como é plena a paz do olhar sereno,
Incapaz de julgamento,
Porém atento.

Salve a pureza do sentimento,
Com a fluidez da vontade que não teme,
Que, arriscando-se, aprende a viver,
Pois não tem medo de sofrer,
E não tem nada a perder.

Quero poder apreciar a harmonia dos acordes da vida,
Sentir seu aroma,
Deslizar as mãos sobre seu corpo curvilíneo,
Provar seu néctar divino,
Conhecê-la em seu íntimo.

Ouço, então, as coordenadas do instinto,
Curioso como um menino,
Seguindo o caminho contínuo da própria natureza,
Sem frente e verso, dentro e fora,
Ou seja,
Sem qualquer fronteira.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Demoníaco

Daniel Braz

O homem vitrine se veste a chicotadas.
Pelo seu corpo, etiquetas e marcas,
Ferraduras em suas patas.
Pensa, cria, produz, trabalha,
Para a atender a demandas de outrem,
Por outrem inventadas.
Uma piada...

Aplicar? Objetivamente?
Viver cada segundo já é pôr em prática...
Mas saiba:
O amor é demoníaco,
E o ato de criar é subjetivo...
Prefiro, assim, ser como um palhaço
Que solta risos e gargalhadas
Assistindo aos saltos precisos do convencido acrobata.
Enquanto o palhaço cai de bunda e dá cambalhota,
O acrobata esquece do chão enquanto no ar mergulha.

                                   *

Meu espetáculo não se embrulha,
Não faz pacote.
Do contrário, o papel lamberia-se de fogo.
Porque o produto sai quente,
Tipo "hot",
Direto do ventre, que se faz forno,
Com auxílio da mente que fermenta o bolo.
E tem mais...
Filho dos outros eu não roubo,
Pois sou mãe parideira.
Mas tampouco concebo por encomenda,
Muito menos se for em sequência.

Afinal, cria minha só pode ser poema sincero,
E coloco a rima onde e quando eu bem entender,
Não me restrinjo a regras,
Não tenho lógica,
Não sigo esquemas.
Imprimo a ferro e fogo a minha marca,
A marca minha,
Minha.

domingo, 25 de novembro de 2012

Metáforas II

Daniel Braz

A garrafa caiu,
Espalharam-se os cacos,
Ouviram-se gritos escandalizados.

No meu pé, nenhum arranhão sequer.
No chão, cenário de estrago,
Caos generalizado,
Vidro em mil pedaços.

Cacos no piso, cacos no teto, cacos na parede.
Cacos sobre os móveis e embaixo deles.

Peraí... No instante fatídico, o recipiente estava cheio ou vazio?
Bom,
Se estava vazio, considero a metáfora do aviso.
Aproveito a chance e reseleciono cuidadosamente, dessa vez, meu líquido.
Se estava preenchido, reconheço também o sinal divino,
E escolho melhor meu recipiente de vidro.

Mas antes, abro bem os olhos,
Presto atenção aonde piso,
E trato de limpar logo essa sujeira!

sábado, 24 de novembro de 2012

Horário

Daniel Braz

Acorda cansado,
Viaja no horário,
Sai em cima do prazo.

Cai no trânsito
E o enfrenta.

Chega atrasado demais,
Se enrola.
Até estar pronto demora um ano,
Mas não perde o ponto, nem se mostra incapaz.

Na última hora é tranco,
Mas até que ele aguenta!

OBS.: Da próxima vez eu acerto, não esquenta!

Ideias

Daniel Braz

Recursos renováveis,
Não dependem de ninguém.
Matéria-prima para o lúdico,
Visíveis somente aos olhos nus do Homem,
Cabe a nós apenas permutá-las,
Recortá-las,
Dando-lhes formas palpáveis à nossa estética.

Quem, porém, não arruma o quarto perde a razão das ideias,
Agora desconexas no chão bagunçado.
Então, deixe de preguiça, moleque,
Recomponha-as peça por peça,
Não necessariamente do modo que era.
É até melhor assim.

Tenho pena de quem vê na confusão o fim, o fardo.
Estes se alimentam da depressão
Como se fosse fato consumado.
Não se ligam de que é justamente o contrário.

Então me mostre onde há ordem que eu vou lá e embaralho,
Sem remorso...
Natureza não é arranjo,
Não está contida em tempo, circunstância e espaço.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Metáforas I

Daniel Braz

O surfista se amarra no mar apenas quando agitado,
O idoso prefere ele calmo, ainda mais quando há bancos de areia.
Para a criança tanto faz,
E, em seu sagrado "sim",
Mostra que mudança e variedade são substratos da brincadeira.
                                       
                                              *

300 km/h,
Uhh, emocionante!
40 km/h,
Ó, tédio!
Melhor ainda é correr na direção contrária,
Para chegar rápido aonde todos sentem-se repelidos,
De onde emigram,
À procura dos seus privilégios.
Mas calma, 300 km/h é muito arriscado...

                                              *

O gato que pula aonde quer
Derruba abajures, quebra pratos,
Porta-retratos, ...
Não que tais objetos tenham valor real...
No máximo, emocional!
Mas, ainda assim, desnecessário se faz um quebra-quebra,
Por simples falta de caultela.
Causa e efeito é regra!
É coisa séria!